Mandato de Rua


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Como escutar o que as crianças têm a dizer sobre a cidade?

“Como escutar o que as crianças têm a dizer sobre a cidade?”

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É em torno dessa provocação que acontecerá o seminário Se essa rua fosse minha… Vamos ouvir as crianças?, que será realizado no próximo dia 26/8 (sexta-feira), das 9h às 17h30, na Universidade do Meio Ambiente e Cultura de Paz (UMAPAZ – Avenida Quarto Centenário, 1268, portão 7A – São Paulo/SP).

O evento pretende estimular a participação social de crianças na construção de ambientes urbanos, apontando que “o acesso à cidade é fundamental na formação, na educação e desenvolvimento integral das crianças. Assim como é fundamental, para uma cidade, que nela vivam e por ela circulem crianças”.

Para tanto, o evento tem como objetivo o desenvolvimento de uma metodologia de escuta infantil em conjunto, reunindo pessoas de instituições de diversas regiões da cidade – que atuem junto às crianças em escolas, comunidades, bairros, praças, parques, ruas, condomínios, cortiços e hospitais – para contribuir na realização da escuta junto às crianças de seus respectivos territórios.

O seminário contará com um debate e um almoço coletivo, além de dinâmicas de cocriação de estratégias de escuta, que contarão com a participação de Renata Meirelles (Território do Brincar), Rodrigo Rubido (Instituto Elos), Wellington Nogueira (Doutores da Alegria) e Adriana Friedmann (Mapa da Infância Brasileira).

Além da vontade de ouvir o que as crianças sentem, pensam e desejam para o lugar onde vivem, os organizadores do encontro querem que o novo prefeito de São Paulo, a ser eleito em outubro, escute e leve em consideração as ideias, sugestões e propostas das crianças para a metrópole.

Para além de garantir um espaço de escuta e participação das crianças no planejamento urbano, o seminário propõe intervenções de meninos e meninas para tornar a cidade mais acolhedora e democrática. Em Rosário, cidade argentina que sediou a última edição do Congresso Internacional de Cidades Educadoras,  instâncias participativas como o Conselho de Crianças e o Congresso de Jovens dão voz e vez para essa faixa etárea da população contribuir com o dia a dia da cidade, projetando novas formas de governança.

Para participar, ė necessário cadastrar sua iniciativa na plataforma do Mapa da Infância Brasileira e preencher a ficha de inscrição.

Fonte: UOL.


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Negra, pobre e Silva: o primeiro ouro da Rio 2016 é a cara do Brasil

Rafaela Silva, medalha de ouro no Judo Olimpiadas Rio 2016

Na Olimpíada de Londres 2012, a judoca Rafaela Silva já era esperança de medalha para o Brasil. Mas o que era para ser a consagração de uma jovem talentosa, moradora da Cidade de Deus, uma das mais emblemáticas favelas do Rio de Janeiro, virou um episódio desagradável em questão de segundos. A tentativa de um golpe irregular e a consequente eliminação na luta preliminar dos Jogos quase encerrou sua carreira. A derrota foi seguida de comentários racistasnas redes sociais, que abalaram tanto a atleta que ela precisou ser convencida a voltar aos treinos. Hoje, quatro anos depois, em casa, ela entrou para a história ao conquistar para o Brasil a primeira medalha de ouro da Rio 2016 e a memória da agressão veio com êxtase e choro: “O macaco que tinha que estar na jaula hoje é campeão”, falou à TV Globo após a conquista da categoria peso-leve.

 

Londres esteve o tempo todo presente na cabeça deRafaela Silva nesta segunda-feira. A segunda luta dela foi exatamente contra a húngara Hedvig Karakas, adversária da fatídica eliminação nos Jogos de 2012. “Eu tinha visto a chave e esperava que a gente se cruzaria. Eu só não pensava que iria sentir aquela sensação de novo”, contou. “Depois de ser eliminada em Londres, não tem como segurar a emoção na hora do hino”, disse a judoca ao canal Sportv, ainda com a medalha no peito, logo depois de descer do lugar mais alto do pódio.

A retomada da carreira aos 24 anos — que culminaria no ouro que é a cara do Brasil: de uma negra, pobre e Silva — é fruto de muito trabalho no tatame e também fora dele. Rafaela Silva contou com o apoio de uma psicóloga para refazer a ideia que tinha de si mesma. Aos poucos, a judoca voltou a acreditar que poderia ser campeã. Conquistou o mundial em 2013 e teve uma recaída na sequência. A recuperação durou dois anos. “Pensei que fosse largar o judô depois da minha derrota em Londres. Comecei a fazer um trabalho com minha psicóloga e ela não me deixou abandonar o judô. Meu técnico também me incentivava a cada dia. Em 2014 e 2015 não tive bons resultados, estava meio desacreditada. Falaram que eu era uma incógnita, mas eu vim, treinei ao máximo e o resultado veio”. Rafaela começa a erguer a história do judô brasileiro na Rio 2016, a modalidade que mais deu pódios ao país em Jogos Olímpicos ao lado do vôlei, após a decepção com a eliminação de duas promessas do tatame no sábado.

Em uma coletiva de imprensa convocada nesta terça-feira, Rafaela voltou a falar de Londres. Contou que, depois da derrota, chegou a pensar em em parar de lutar. “Recebi todas as críticas pela forma que perdi e só queria ser amparada pela minha família. Voltei a treinar no final de 2012, voltei a competir em 2013 e ganhei o mundial no Rio de Janeiro. Então acreditei que poderia voltar a disputar umaOlimpíada“.

Para que não perdesse o foco nesta competição, deixou o celular no modo avião e só falava com sua família. Nesta terça, após dormir apenas quatro horas, foi acordada às 8h por pessoas que queriam abraçá-la e ver sua medalha. E quando voltou a abrir seu Instagram, viu que o número de seguidores havia passado de 10.000 para 90.000. Recebeu mensagens de apoio até de esportistas já famosos, como a jogadora Marta e o jogador Neymar. A ficha, disse, ainda não caiu.

Entre os agradecimentos, uma homenagem especial às crianças que são suas companheiras de treino no Instituto Reação, projeto social de Flavio Canto, medalhista de bronze em Atenas 2004. Criado em 2003, o Instituto atende mais de 1.200 alunos, entre os quais está Rafaela. Lá, explicou nesta terça, foi amparada desde que começou. Ganhou um quimono de presente — “bem maior que o meu corpo!” — e, como sua família não tinha dinheiro, seus professores tiravam do próprio bolso para que ela pudesse viajar para competir. Lembrou também que “era uma criança muito agressiva” e que, se não a deixavam brincar, começava a brigar. “Lá no instituto eles me cobravam muito. Não só treino, mas também a parte social. Não adianta você ser atleta se a sua educação e vida social não batem com o esporte”, contou Rafaela, que também é uma das atletas que representam o Brasil nos Jogos Militares. Ela é terceiro sargento da Marinha e faz parte do Programa de Alto Rendimento do Ministério da Defesa.

“É muito bom para as crianças que estão assistindo ao judô agora. Ver alguém como eu, que saiu da Cidade de Deus, que começou o judô com cinco anos como uma brincadeira, ser campeã mundial e olímpica, é algo inexplicável. Se essas crianças têm um sonho, têm que acreditar que pode se realizar”, disse Rafaela Silva. Sob o quimono, no bíceps direito, ela já havia tatuado o seu: “Só Deus sabe o quanto sofri e o que tive de fazer para chegar aqui”, diz a frase que fez desenhar sobre anéis olímpicos coloridos.

Fonte: El País


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Movimento Resistência elege direção da Comissão de Ética do Sindjorce

Sem títuloUm feito histórico. No último dia 6 de agosto, o Movimento Resistência conquistou uma vitória expressiva ao ocupar os três cargos de direção da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce). Em votação unânime, os membros do colegiado elegeram Salomão de Castro, presidente da Comissão; Anderson Sandes, vice-presidente, e Mara Cristina, secretária. Os mandatos serão exercidos no período 2016-2019.
De forma pioneira na história do Sindjorce, um movimento oposicionista à atual diretoria ocupa agora três das cinco vagas da Comissão de Ética (60% do total) e todos os cargos de direção do colegiado.
A votação nominal para os cargos, realizada desde 2010 tanto pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) quanto nos Sindicatos dos Jornalistas do País, garante a independência das comissões de ética diante das diretorias da Federação e dos Sindicatos, assegurando a autonomia das suas decisões.
Vitória expressiva
No último dia 22 de julho, os jornalistas cearenses consagraram os candidatos que o Movimento Resistência lançou para a Comissão de Ética do Sindjorce. Primeiro colocado na disputa, Salomão de Castro alcançou 252 votos, votação superior à da chapa eleita para a diretoria do Sindicato no próximo triênio. Mara Cristina obteve 187 votos, sendo a mais votada em três das cinco urnas disponíveis no processo eleitoral (em uma delas, empatada com Salomão de Castro). Já Anderson Sandes, com 168 votos, registrou um outro feito histórico: a vitória de um profissional que atua no Interior do Ceará, no município de Juazeiro do Norte, como professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) – o que permite que a Comissão atue para além dos limites de Fortaleza, levando seu trabalho a outras regiões do Estado.
Em comum, os eleitos pelo Movimento Resistência para a Comissão de Ética acumulam passagens pelo jornal Diário do Nordeste e o exercício da docência. Um outro elemento os une: o desejo de construir uma entidade forte, representativa e atuante ao longo dos próximos anos, em um colegiado de grande importância para a entidade representativa dos jornalistas no Ceará, o Sindjorce.


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“Igrejas inclusivas nascem da intenção de repensar a tradição religiosa”

Antropólogo da USP, Marcelo Natividade

As igrejas inclusivas chegaram no Brasilno início dos anos 2000 e nos últimos dez anos não pararam de aumentar em número. A história delas, contudo, começa muito tempo antes, no simbólico ano de 1968, nos Estados Unidos. O antropólogo e professor da Universidade São Paulo, Marcelo Natividade, fala sobre a origem e reflexos atuais dessas congregações que aceitam fiéis e pastores sem olhar para sexualidade.

Pergunta. Qual foi a primeira igreja inclusiva do mundo?

Resposta. A Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), dos Estados Unidos, que foi fundada em 1968. Era um momento de muita efervescência política em que o movimento LGBT ganhou força com Stonewall. Entre 1970 e 1980, a ICM também ganhou um forte viés de luta contra a AIDS. Essa experiência, que existe até hoje e atualmente está no Brasil também, influenciou todas as posteriores.

P. E no Brasil?

R. Na década de 1990, o pastor Nehemias Marien aceitava homossexuais em sua Igreja Presbiteriana Bethesda, em Copacabana. Depois ele acabou sendo expulso da congregação, sua igreja fechou anos depois e só nos anos 2000, uma movimentação que trouxe a ICM para o Brasil deu início à abertura de igrejas inclusivas. Só de dez anos para cá que elas aumentaram significativamente em número. Hoje, há várias delas. A Igreja Contemporânea Cristã, do Rio de Janeiro, a Cidade Refúgio e a Congregação Cristã Nova Esperança, ambas em São Paulo, são bons exemplos.

P. Existem diferenças entre as igrejas inclusivas?

R. Claro. Algumas têm um caráter mais ativista, como a ICM, outras são mais pentecostais como a Cidade Refúgio, em que as pastoras vieram da Assembleia de Deus. Também tem que se considerar sempre que as pessoas consomem o discurso pastoral, mas não necessariamente concordam com tudo o que ele diz. As pessoas não são árvores plantadas, elas interpretam, entendem e transitam entre igrejas, assim como fazem em todos os outros espaços que frequentam.

P. O que elas representam nesse momento?

R. É um movimento interessante. Em sua gênese, ele nasce com uma face potencialmente desestabilizadora das ordens hegemônicas. Há a intenção política de reposicionar o espaço de protagonismo na própria religião. É a intenção de repensar uma tradição religiosa e o lugar da população LGBT no mundo contemporâneo. Por isso, acredito que são espaços e grupos que operam pelo empoderamento da população LGBT como um todo.

P. Mas como igrejas cristãs há certos dogmas que não serão superados, certo?

R. Sim. Há alguns pilares do cristianismo que são fixos. Nenhum movimento rompe com todos. Algumas, acredito, rompem mais. É o caso, por exemplo, da ICM, que eu já mencionei. Eles têm uma reflexão sobre a natureza do pecado. Enquanto as igrejas em geral ficam preocupadas com a gestão da vida afetiva, das relações monogâmicas, a ICM diz que o pecado é o sexo violento. Ou seja, isso volta um pouco para o que eu falei na resposta anterior: são espaços que operam pelo empoderamento da população LGBT.

Fonte: EL Brasil


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Intolerância religiosa, não. Mais amor, por favor

É muito nítido para quem quiser enxergar que existe uma ‘onda’ muito grande de intolerância religiosa no mundo. No Brasil, essa realidade parece se potencializar a cada vez mais devido ao radicalismo de certos grupos religiosos, que atacam diariamente todos aqueles que são diferentes ou contrários as suas respectivas doutrinas.

O que, de fato, leva fiéis a terem esse tipo de comportamento, se o grande objetivo de qualquer religião é tornar a qualquer pessoa, um ser humano melhor? Os motivos da intolerância são inúmeros, mas o que leva a todos os outros é, sem dúvidas, a falta de amor ao próximo que esses falsos profetas e pseudoreligiosos carregam em seus discursos de ódio, que apenas criticam, julgam e condenam parecendo terem se esquecido de que a maior mensagem de Deus foi – sem sombras de dúvidas – o amor.

É justamente esse sentimento tão puro que muitos dos que pregam determinas religiões mundo afora parecem nunca  ter encontrado, sejam em suas vidas pessoais ou em suas doutrinas de fé, o que só nos prova que o caminho que resolveram trilhar está equivocado, pois  faz muito mal a eles próprios e à extensa maioria que está ao seu redor. Entretanto, a meu ver, nunca é tarde para recomeçar, qualquer religião que de fato cumpra o seu papel irá sempre te tornar uma pessoa melhor, mais humanizada e, por consequência, mais iluminada.

Não se deixe alienar e nunca perca o seu senso de realidade daquilo que de fato é correto, busque uma religião  que te faça bem e não tenha medo de acreditar. Recomeçar a busca pela fé é uma jornada que talvez você não encontre na primeira viagem, mas o importante é que você nunca deixe de procurar aquilo que te traga paz de espírito.

Espalhe amor no mundo ao seu redor, pode ser em seu próprio lar, a um vizinho, e por que não a um desconhecido que precisa de um sorriso, dos seus ouvidos, de algo que você não precisa mais, de um casaco em um dia frio?

Já existe muito mal por ai, nos tempos em que vivemos fazer o bem é primordial. Seja primordialmente integrante do time do amor e da paz.

Deus é grandioso, misericordioso e único.

Chega de intolerância religiosa, faça o bem sem olhar a quem!


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Alergia Alimentar é assunto sério!

Lutar em defesa das crianças e das famílias que sofrem com a alergia alimentar é prioridade. É necessário que a prefeitura garanta o direito à saúde da população com alergia alimentar, principalmente às crianças que mais sofrem.

Jovanil Oliveira protocolou, na Câmara Municipal, de Fortaleza, o Projeto de Indicação (26/2016) que dispõe sobre a criação do Programa de Diagnóstico, Tratamento e Dispensação de Fórmulas Especiais para Crianças, Adolescentes e Adultos com Alergia à Proteína do Leite da Vaca (APLV) e a outras Alergias Alimentares no âmbito do município.

Confira o projeto na íntegra: http://216.59.16.201:8080/…/c…/materia/materia_mostrar_proc…


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Aluna negra de medicina da Uerj dá depoimento emocionante sobre sua conquista

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Mirna Moreira é uma jovem aluna de medicina da Uerj, mas ela é uma minoria. Negra e moradora do Complexo do Lins, conjunto de favelas carioca, a fala sobre as dificuldades que enfrenta em um curso que não está acostumado com pessoas negras, especialmente mulheres negras.

A estudante é filha de uma telefonista e de um bombeiro e disse que teve “privilégios”, porque seus pais sempre conseguiram financiar seus estudos.

A jovem teve sua vida divulgada através de um post da página “Boca de Favela”, onde dizia “eu sei quem são os pretos que me trouxeram até aqui”. Depois de centenas de compartilhamentos, ela deu um depoimento para a BBC.

Confira.

“Nasci e cresci no Complexo do Lins, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. Hoje, aos 22 anos, me sinto uma privilegiada. Por esforço dos meus pais ─ ele, bombeiro, ela telefonista ─ consegui ter acesso ao estudo e foi por causa deles que hoje faço Medicina

É até engraçado falar em privilégio nas minhas circunstâncias. Mas não são todas as pessoas daqui que têm um sonho e podem concretizá-lo. Sou uma exceção à regra. Fala-se em meritocracia, mas ela é inexistente a partir do momento que nem todo mundo tem as mesmas oportunidades.

Com exceção do primário, sempre estudei em colégio particular. Ganhava bolsas parciais e meus pais se esforçavam para pagar o resto. Quando fiz curso pré-vestibular, a mensalidade era de R$ 2 mil. Nunca teria esse dinheiro. Mas conviver com essas duas realidades completamente diferentes me permitiu ter maior senso crítico. Conto nos dedos das mãos, por exemplo, os amigos que frequentavam minha casa durante a escola.

É desafiador ser negro e morar em uma favela no Brasil. Vivo um preconceito duplo. Vez ou outra, sou seguida por seguranças em lojas.

Medicina

E quando decidi cursar Medicina, embora sempre tenha tido o apoio dos meus pais, muita gente próxima questionou minha escolha. Me perguntavam: ‘Você quer isso mesmo? Você não tem cara de médica’.

Entendo em parte esse pensamento. A sociedade diz a nós, negros, que não vamos conseguir. Além disso, continuamos sofrendo com a falta de representatividade. Você entra em um hospital e vê poucos médicos negros. Atores negros ainda são uma minoria nas novelas. E tudo isso apesar de sermos a maioria da população.

Prestei vestibular por três anos até conseguir passar no curso de Medicina. Entrei por cotas, mas não estudei menos por isso. Nas vezes que fui reprovada, fiquei muito mal. Sabia que meus pais tinham outras contas para pagar e não poderiam me bancar nessa situação. Mas eles não desistiram do meu sonho. Nem eu.

Escolhi Medicina pela arte de cuidar do outro. E pretendo ser médica de família. Não se trata de uma especialização muito divulgada e é até desprezada pelos próprios médicos.

Mas acho que meu envolvimento com essa área diz muito de onde eu venho. Quero devolver à minha comunidade o que me foi dado e atender a quem realmente precisa.

Racismo

Não vou generalizar, mas sempre tem alguém que me olha torto na faculdade. Porque sou negra, moradora de favela e cotista.

No primeiro período, por exemplo, aconteceu um episódio do qual não me esqueço.

Eu e uma menina branca fomos as únicas a gabaritar a prova teórica de Anatomia, uma das disciplinas mais temidas pelos alunos. Alguns colegas ficaram surpresos. Disseram que ‘escondi o jogo’ e me perguntaram como eu tinha tirado uma nota daquelas. Por quê? Se as pessoas mal se conheciam, por que tanta surpresa com o meu desempenho e não com o dela?

Recentemente, também fui alvo de um ataque racista na internet. Uma página moderada pelos alunos da Uerj, sem vínculo com a universidade, decidiu fazer um concurso de beleza. Cada curso tinha uma representante – e eu fui escolhida para representar o curso de Medicina.

Minha foto recebeu vários comentários racistas. Li coisas do tipo: “Como assim essa preta tá fazendo Medicina?” ou “Você vota na negra mas não alimenta macaco no zoológico”.

Decidi registrar uma denúncia na polícia. Mas não houve investigação. Se você não é artista, demora bastante.

Negritude

Acho que essa minha iniciativa foi um reflexo da minha maturidade. Me sinto mais consciente sobre meus direitos. E também resolvi assumir de vez minha negritude, começando pelo meu cabelo.

Desde criança, alisava os fios. Hoje, percebo que fazia isso porque queria me enquadrar. Na escola, minhas amigas eram brancas e tinham cabelo liso.

Mas resolvi parar. Não queria mais ser refém de algo que não me fazia bem. E foi uma ótima surpresa. Meu cabelo é lindo e amo os meus cachos. Antigamente, me embranquecia. Isso acabou. Tenho orgulho de ser negra.

E hoje tenho cada vez mais certeza disso. Há alguns meses, participei de uma ação sobre sexualidade na adolescência para escolas públicas no Morro dos Macacos. Na saída de uma delas, as meninas negras pediram para tirar fotos comigo e elogiaram meu cabelo crespo. Elas me viram como referência.

Isso porque, quando entro na favela de jaleco, não prescrevo apenas remédios, prescrevo sonhos. Mostro para essas meninas que elas podem ter um futuro.

Coincidentemente, porém, no dia dessa ação na escola, voltei no mesmo ônibus que uma aluna. E quando desci no mesmo ponto que ela aqui perto de casa, ela perguntou: ‘o que você tá fazendo aqui’?

Chorei muito. Mas isso só me fez ter mais consciência da minha função social. Com o perdão do trocadilho, quero poder dar uma ‘injeção de ânimo’ nessas pessoas.

Reconheço que aqui os sonhos são muitas vezes limitados pela falta de oportunidades. Mas espero que um dia todos nós tenhamos chances iguais.

Não vai ser fácil, mas sei que é possível.”

Fonte: Revista Fórum.

 

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